domingo, 20 de setembro de 2026

A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR SEM TELAS

 Autora: Denise Maria Antonio

Licenciada em Ciências Sociais, Pedagogia  e pós graduada em Educação para os Direitos Humanos.


O brincar sem a utilização de telas constitui uma experiência fundamental para o desenvolvimento integral da criança, pois possibilita a participação ativa, a exploração do ambiente, a criatividade e a construção de conhecimentos por meio das interações com outras pessoas e com os objetos. Nas brincadeiras livres e espontâneas, a criança pode tomar decisões, fazer escolhas, experimentar diferentes materiais, criar situações imaginárias, negociar regras e modificar suas estratégias de acordo com as circunstâncias vivenciadas.

Essa compreensão encontra respaldo na perspectiva de Vygotsky (1991), para quem o desenvolvimento infantil está profundamente relacionado às interações sociais e culturais. Durante as brincadeiras, a criança amplia suas possibilidades de aprendizagem ao interagir com adultos e outras crianças, apropriando-se de conhecimentos e formas de agir construídas socialmente. A brincadeira, especialmente aquela que envolve situações imaginárias e regras, contribui para o desenvolvimento de funções psicológicas superiores, da linguagem, da autorregulação e da capacidade de atribuir novos significados às experiências.

Na perspectiva de Piaget (1971), o brincar também desempenha papel importante na construção do conhecimento. Por meio da atividade lúdica, a criança assimila experiências, experimenta possibilidades e estabelece relações com o mundo que a cerca. As brincadeiras que envolvem movimento, manipulação de objetos, representação e exploração permitem que a criança desenvolva progressivamente estruturas cognitivas e formas mais elaboradas de compreender a realidade.

Kishimoto (2011) destaca a relevância do brincar e dos brinquedos no processo de desenvolvimento e aprendizagem infantil. Para a autora, o brincar proporciona à criança possibilidades de criação, imaginação, experimentação e interação social. Dessa maneira, as brincadeiras que não dependem de dispositivos eletrônicos podem ampliar as oportunidades de exploração e permitir que a criança seja protagonista na construção de suas experiências, utilizando objetos e materiais de diferentes maneiras e atribuindo-lhes novos significados.

Essa dimensão do brincar também pode ser relacionada às contribuições de Winnicott (1975), que compreende o brincar como uma experiência essencial para o desenvolvimento emocional e para a expressão criativa da criança. O espaço do brincar possibilita que ela experimente, crie e manifeste sentimentos e ideias em um ambiente que favoreça a segurança e a espontaneidade. Nesse sentido, momentos de brincadeira livre podem contribuir não apenas para aspectos cognitivos e sociais, mas também para a constituição da identidade e da autonomia infantil.

A Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018) reconhece a importância do brincar na Educação Infantil ao estabelecer as interações e a brincadeira como eixos estruturantes das práticas pedagógicas. O documento assegura às crianças direitos de aprendizagem e desenvolvimento, entre eles conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Dessa forma, garantir momentos de brincadeira sem a mediação constante das telas está relacionado à necessidade de proporcionar experiências diversificadas, nas quais a criança possa interagir, movimentar-se, explorar diferentes materiais, expressar-se e desenvolver sua autonomia.

A desconexão temporária dos dispositivos digitais também pode favorecer experiências de atenção compartilhada e interação social. Ao brincar com outras crianças ou com adultos, a criança é incentivada a observar expressões faciais e corporais, ouvir diferentes falas, interpretar situações, negociar regras e responder aos acontecimentos. Essas experiências contribuem para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação, da cooperação e dos vínculos afetivos, aspectos fundamentais para o desenvolvimento infantil.

Entretanto, defender o brincar sem telas não significa propor a eliminação das tecnologias digitais da infância. Os recursos tecnológicos fazem parte da sociedade contemporânea e podem apresentar possibilidades de comunicação, informação, aprendizagem e entretenimento. O desafio está em promover um uso equilibrado, de modo que as experiências digitais não substituam outras formas importantes de interação, movimento, exploração e brincadeira.

Nesse sentido, a proposta de “brincar sem telas” deve ser compreendida como uma estratégia de ampliação do repertório de experiências da criança. Garantir momentos regulares de brincadeira sem a presença de dispositivos eletrônicos possibilita que ela explore o ambiente, utilize a imaginação, desenvolva sua criatividade, estabeleça relações sociais e construa conhecimentos a partir de experiências concretas.

Assim, considerando as contribuições de Vygotsky, Piaget, Kishimoto e Winnicott, bem como os princípios estabelecidos pela BNCC, o brincar pode ser compreendido como uma experiência indispensável ao desenvolvimento integral da criança. Mais do que retirar as telas do cotidiano infantil, trata-se de garantir equilíbrio entre diferentes experiências, assegurando à criança o direito de brincar, imaginar, criar, movimentar-se, interagir e conhecer o mundo para além dos dispositivos digitais.


Referências 

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2011.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


Nenhum comentário:

Postar um comentário