Autora: Denise Maria Antonio
Licenciada em Ciências Sociais, Pedagogia e pós graduada em Educação para os Direitos Humanos.
O brincar
sem a utilização de telas constitui uma experiência fundamental para o
desenvolvimento integral da criança, pois possibilita a participação ativa, a
exploração do ambiente, a criatividade e a construção de conhecimentos por meio
das interações com outras pessoas e com os objetos. Nas brincadeiras livres e
espontâneas, a criança pode tomar decisões, fazer escolhas, experimentar
diferentes materiais, criar situações imaginárias, negociar regras e modificar
suas estratégias de acordo com as circunstâncias vivenciadas.
Essa
compreensão encontra respaldo na perspectiva de Vygotsky (1991), para
quem o desenvolvimento infantil está profundamente relacionado às interações
sociais e culturais. Durante as brincadeiras, a criança amplia suas
possibilidades de aprendizagem ao interagir com adultos e outras crianças,
apropriando-se de conhecimentos e formas de agir construídas socialmente. A
brincadeira, especialmente aquela que envolve situações imaginárias e regras,
contribui para o desenvolvimento de funções psicológicas superiores, da
linguagem, da autorregulação e da capacidade de atribuir novos significados às
experiências.
Na
perspectiva de Piaget (1971), o brincar também desempenha papel
importante na construção do conhecimento. Por meio da atividade lúdica, a
criança assimila experiências, experimenta possibilidades e estabelece relações
com o mundo que a cerca. As brincadeiras que envolvem movimento, manipulação de
objetos, representação e exploração permitem que a criança desenvolva
progressivamente estruturas cognitivas e formas mais elaboradas de compreender
a realidade.
Kishimoto
(2011) destaca a relevância do brincar e dos brinquedos no processo de
desenvolvimento e aprendizagem infantil. Para a autora, o brincar proporciona à
criança possibilidades de criação, imaginação, experimentação e interação
social. Dessa maneira, as brincadeiras que não dependem de dispositivos
eletrônicos podem ampliar as oportunidades de exploração e permitir que a criança
seja protagonista na construção de suas experiências, utilizando objetos e
materiais de diferentes maneiras e atribuindo-lhes novos significados.
Essa
dimensão do brincar também pode ser relacionada às contribuições de Winnicott
(1975), que compreende o brincar como uma experiência essencial para o
desenvolvimento emocional e para a expressão criativa da criança. O espaço do
brincar possibilita que ela experimente, crie e manifeste sentimentos e ideias
em um ambiente que favoreça a segurança e a espontaneidade. Nesse sentido,
momentos de brincadeira livre podem contribuir não apenas para aspectos
cognitivos e sociais, mas também para a constituição da identidade e da
autonomia infantil.
A Base
Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018) reconhece a importância do
brincar na Educação Infantil ao estabelecer as interações e a brincadeira
como eixos estruturantes das práticas pedagógicas. O documento assegura às
crianças direitos de aprendizagem e desenvolvimento, entre eles conviver,
brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Dessa forma,
garantir momentos de brincadeira sem a mediação constante das telas está
relacionado à necessidade de proporcionar experiências diversificadas, nas
quais a criança possa interagir, movimentar-se, explorar diferentes materiais,
expressar-se e desenvolver sua autonomia.
A
desconexão temporária dos dispositivos digitais também pode favorecer
experiências de atenção compartilhada e interação social. Ao brincar com outras
crianças ou com adultos, a criança é incentivada a observar expressões faciais
e corporais, ouvir diferentes falas, interpretar situações, negociar regras e
responder aos acontecimentos. Essas experiências contribuem para o
desenvolvimento da linguagem, da comunicação, da cooperação e dos vínculos
afetivos, aspectos fundamentais para o desenvolvimento infantil.
Entretanto,
defender o brincar sem telas não significa propor a eliminação das tecnologias
digitais da infância. Os recursos tecnológicos fazem parte da sociedade
contemporânea e podem apresentar possibilidades de comunicação, informação,
aprendizagem e entretenimento. O desafio está em promover um uso equilibrado,
de modo que as experiências digitais não substituam outras formas importantes
de interação, movimento, exploração e brincadeira.
Nesse
sentido, a proposta de “brincar sem telas” deve ser compreendida como
uma estratégia de ampliação do repertório de experiências da criança. Garantir
momentos regulares de brincadeira sem a presença de dispositivos eletrônicos
possibilita que ela explore o ambiente, utilize a imaginação, desenvolva sua
criatividade, estabeleça relações sociais e construa conhecimentos a partir de
experiências concretas.
Assim,
considerando as contribuições de Vygotsky, Piaget, Kishimoto e Winnicott, bem
como os princípios estabelecidos pela BNCC, o brincar pode ser compreendido
como uma experiência indispensável ao desenvolvimento integral da criança. Mais
do que retirar as telas do cotidiano infantil, trata-se de garantir
equilíbrio entre diferentes experiências, assegurando à criança o direito
de brincar, imaginar, criar, movimentar-se, interagir e conhecer o mundo para
além dos dispositivos digitais.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base
Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.
KISHIMOTO,
Tizuko Morchida. Jogo,
brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2011.
PIAGET,
Jean. A
formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação.
Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
VYGOTSKY,
Lev Semionovich. A
formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
WINNICOTT,
Donald W. O
brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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